Os Desafios da(s) doença(s) crónica (s) do negócio bancário – 1/3

O sector bancário está doente há já alguns anos. Com o passar do tempo tem vindo a agravar-se substancialmente. Por que
será que o sector financeiro, suporte da economia, está tão debilitado?

O modelo de negócio bancário

Em primeiro lugar, precisamos compreender, de forma muito simples, o modelo de negócio bancário, nomeadamente, como é composta a sua Demonstração de Resultados (o apuramento do valor capturado).

P&L

Explica-se de seguida, evitando sempre que possível usar terminologia técnica, cada linha da demonstração de resultados apresentada.

+Juros a receber

A Banca concede crédito à economia real para financiar bens transaccionáveis e não transaccionáveis. Significa que aplica parte dos depósitos captados em crédito concedido a particulares e a empresas e fica na expectativa de receber todo o capital emprestado – entenda-se que parte do depósito é pertença de alguém – num dado prazo, acrescido de juro – o juro que o cliente tem de pagar pelo crédito. O crédito concedido é o activo do Banco.

-Juros a pagar 

A Banca capta depósitos resultantes da poupança nacional. Significa que se torna devedora perante o cliente e assume um encargo financeiro futuro. Refiro-me ao juro que o Banco tem de pagar pelo depósito constituído. O depósito captado é passivo do Banco.

À relação entre crédito concedido e depósitos chama-se rácio de transformação de depósitos em crédito. Significa que quando o rácio é de 130%, o crédito concedido excede em 30% os depósitos captados. Para equilibrar o balanço a Banca recorre a fontes alternativas de financiamento para a sua actividade de crédito. Ou por via do reforço do seu capital próprio através de aumento de capital social ou através de capital alheio,  recorrendo aos mercados de capitais ou a endividamento junto do BCE.

=Margem financeira 

À diferença entre os juros a receber (margem activa) e os juros a pagar (margem passiva) chama-se margem financeira. Significa que para um banco ser “saudável”, esta margem deve ser sempre positiva (mínima de 1,5%, ideal de 2%).

+Comissões 

As comissões bancárias resultam de valores cobrados pelos serviços prestados aos clientes. A comissão é a remuneração dos recursos materiais e humanos utilizados pelo Banco na prestação do serviço ao Cliente. As rubricas de preçário do Banco correspondem à tabela de preços de uma qualquer outra empresa prestadora de serviços.

=Produto bancário

Ao somatório da margem financeira com as comissões chama-se produto bancário. Esta receita é comparável com a facturação / as vendas das empresas comerciais, industriais e agrícolas.

Ao produto bancário é necessário deduzir os custos com os seus colaboradores, com os gastos gerais (vulgos FSE das empresas – fornecimento e serviços externos) e com as amortizações, para se obter, desta forma, o resultado operacional.

A este resultado diminuem-se as provisões, destacando aqui as relativas aos incumprimentos de clientes por motivo de falta de pagamento das responsabilidades / prestações assumidas perante o Banco (vulgo crédito mal parado).

Diminuem-se também as imparidades. Quando um colateral, por ex., uma hipoteca, não cobre 100% do crédito concedido, diz-se que o colateral não está ao par. A Banca está pois obrigada a reforçar a diferença / imparidade verificada entre o valor da dívida e o valor do colateral, salvaguardando, desta forma, o risco de crédito do serviço de dívida, em caso de incumprimento por parte do cliente. A imparidade acontece por diversas razões, como sejam uma sobreavaliação do bem no momento da concessão do crédito; por uma desvalorização posterior do seu valor de mercado no decurso da maturidade do crédito; ou por antecipação em baixa (haircut) do futuro valor de mercado do colateral, que se estima desvalorizar a um ritmo superior ao da amortização da dívida, valores estes normalmente recomendados por regulador ou por auditor externo.

Segue-se o apuramento do imposto em sede de IRC, obtendo-se, finalmente o resultado líquido.

Caso existam resultados positivos, são determinados os valores destinados a reservas, os valores a reter para reinvestimento na empresa e os valores a distribuir a título de dividendos pelos accionistas (os donos do negócio).

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seguinte

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