Os Desafios da(s) doença(s) crónica (s) do negócio bancário – 2/3

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A “doença bancária crónica”

Em segundo lugar, precisamos reflectir sobre o modelo de negócio e questionar por que está então a Banca doente? Apresentarei algumas explicações  seguindo a mesma sequência das rubricas da demonstração de resultados. 

+Juros a receber

Tornaram-se um problema gravíssimo de gerir pois não remuneram adequadamente o ativo do Banco (entenda-se as carteiras de crédito). Nos últimos 15 anos generalizou-se na formação da taxa de juro a cobrar aos clientes a utilização do indexante Euribor (a taxa a que os bancos se financiavam – o custo do dinheiro, acrescido de um spread – na época anunciado aos clientes como a margem do Banco. Não devemos esquecer a redução do spread para valores próximos de zero em produtos como sejam o crédito habitação (consumiram mais de 70% da poupança nacional). Hoje, com a Euribor negativa, os clientes estão a pagar uma prestação que praticamente respeita ao reembolso do capital que pediram emprestado. Os bancos não estão a receber os juros que estimaram obter como receita. O preço de venda que recebem não é adequado ao risco de crédito que incorrem e à rentabilidade desejada. Esta é a primeira premissa financeira colocada em causa:  o indexante Euribor, há mais de 5 anos que deixou de reflectir o custo do dinheiro! Contudo, a maior parte dos créditos de particulares e empresas continua a usá-lo nos dias de hoje como indexante preferencial. 

-Juros a pagar

Como facilmente se compreende, a matéria-prima dos Bancos  são os depósitos.  Uma fonte de financiamento do crédito que parecia ser ilimitada passou, de repente, nos últimos anos, a ser insuficiente para satisfazer  as necessidades de crédito. Era indiferente fazer corresponder as maturidades de funding captado com as maturidades de crédito concedido pois financiamento deste era sempre possível, mais não fosse, no próprio mercado monetário interbancário. O curto prazo financiava incansavelmente o médio e o longo prazo. Não se via nessa opção qualquer inconveniente financeiro.

Contudo, a escassez de liquidez na economia (não prevista pelos critérios de Basileia; estes regulam, essencialmente, os requisitos de capital mínimos) obriga os Bancos a captar e a reter os depósitos a taxas superiores ao considerado desejável como custo de funding, o custo que financia o crédito. 

Esta é a segunda premissa financeira colocada em causa: continuará o acesso ao crédito a ser ilimitado no tempo? Significa pensarmos que existe sempre alguém disponível e com liquidez para financiar a minha ideia / projecto / visão de investimento.  A sociedade em geral continua hoje a reclamar a dinamização da economia por via do incremento do crédito?

=Margem financeira 

Esta margem deve ser positiva. O Banco transforma os depósitos em crédito. Os juros a receber devem ser superiores aos juros que tem a pagar. Se assim não for a rentabilidade e a sustentabilidade da Banca não está assegurada.

Como sabemos, o juro a pagar ao cliente pelo seu depósito é superior ao juro a receber do mesmo pelo seu crédito (refiro-me em concreto aos contratos de médio e longo prazo com mais de 5 anos – que estimo na ordem dos 60%  a 70% do ativo atual da Banca). Não existe desta forma qualquer incentivo para o cliente proceder ao reembolso antecipado, total ou parcial, do crédito que contratou. Quem beneficia?

+Comissões 

Generalizou-se na opinião pública que ter um parceiro financeiro de qualidade significa trabalhar com o Banco que não só cobra o juro mais baixo mas também aquele que isenta as comissões pelos serviços prestados (é fruto da concorrência desenfreada entre empresas financeiras, na luta pela quota de mercado, com benefício direto para o consumidor final). Levar este conceito ao extremo é como se a Banca fosse uma commodity, em que tudo tem de ser gratuito ou a tender para zero. Com este pensamento se legisla, regula, negoceia e se desenham as propostas de valor nas direções de marketing da banca europeia. Que empresas sustentáveis trabalham nestas condições? 

Esta é a terceira premissa financeira colocada em causa: a Banca pode e deve oferecer serviços bancários a custo zero? Que requisitos são exigidos à Banca – investimento em múltiplos recursos, para poder estar em condições (entenda-se estar compliant) para prestar esses mesmos serviços bancários? Este conceito de gratuidade é viável?

=Produto bancário

A margem financeira de muitos bancos é negativa (é o chamado “cancro financeiro”) e as comissões são insuficientes para financiar por si só todos os custos de estrutura operacionais. Como se conclui, o modelo de negócio está pois viciado no que respeita à geração de proveitos regulares que sustentem a sua normal actividade.

Passou-se dos anos de avultados resultados para os anos de incapacidade de geração de proveitos. A prática europeia dos últimos 15 anos de indexar todos os financiamentos à Euribor, repito, indexante que deixou de refletir o custo do dinheiro há mais de 5 anos, destruiu por completo a margem financeira ativa que , por sua vez, arrasta negativamente o modelo de negócio, sendo este incapaz de rentabilizar as carteiras de crédito com mais de 5 anos.

-Custos com Pessoal

Os colaboradores são um número e cada vez mais são um número que não interessa. A solução imediata para combater a fragilidade dos proveitos do modelo de negócio passa por reduzir entre 30% a 40% os quadros de pessoal, sob o pretexto de profundas reestruturações, considerando que reduzir pessoas é reduzir parte significativa do custo e que, por esta via, se viabiliza o negócio. A economia, no seu todo, vai ficar melhorar com a adoção desta medida?

As empresas são compostas por pessoas. Nos anos de crescimento são anunciadas como o principal ativo da empresa. Em situação de crise como o principal problema a eliminar. 

São equacionadas as soluções tradicionais de rescisão por mútuo acordo. Outras, muito recentes e extremamente inovadoras são testadas em “laboratório de resolução de colaboradores”. Criam-se empresas paralelas – os chamados veículos de liquidação com objeto específico e com duração temporária. Transferem-se os colaboradores com contrato de trabalho sem termo para empresas veículos cuja duração destas é a termo certo. Está inventado o novo modelo de contrato de trabalho temporário / prazo sem que exista projeto profissional ou carreira profissional. É uma forma ágil de tornar flexível a legislação do trabalho esmagando tudo o que a constituição e a legislação do trabalho estabelecem no que se refere aos direitos do trabalho. Se esta prática se generaliza está encontrado o instrumento “legal” (?) de resolução de contratos de trabalho de colaboradores efectivos.  

A redução na Banca será inevitável. A transformação digital a isso vai obrigar. Todos a pretendem e defendem, accionistas, colaboradores e clientes. O que a sociedade não está preparada é para ela própria se transformar e criar condições para o reenquadramento profissional dos colaboradores que trabalham hoje em tarefas que já foram ou serão digitalizadas em detrimento de outras novas tarefas tecnológicas que emergem. A experiência profissional é de extrema importância mas muito debilmente reconhecida pelo novo mercado de trabalho (norteado exclusivamente pelo pagamento de baixo salário). 

Que sociedade estamos a construir para nós e para as gerações vindouras, os nossos filhos? 

-Gastos Gerais

Estabelecem-se contratos de outsourcing para  actividade ditas não core, reduzindo por esta via custos com pessoal mas crescendo pela mesma via a rubrica de gastos gerais.

O ganho financeiro imediato está na diferença das rubricas que acabo de mencionar. 

O que se pretende, por vezes, sem profunda reflexão é uma solução imediata de redução de pessoas e não uma verdadeira solução de parceria que seja frutuosa para ambas as empresas. As opções de outsourcing devem ser estratégicas com objetivos de longo prazo e não devem usadas como meras opções de curto prazo, geradoras de resultados sempre duvidosos.

-Amortizações

As amortizações têm vindo a reduzir. Aparentemente representa um sinal de fortalecimento da conta de resultados. Eu encaro como sendo um sinal do enfraquecimento da empresa uma vez que se não existem amortizações é porque não existem novos investimentos. Estes são cruciais numa época de transformação digital e de criação de novos processos de negócio que serão a única forma de satisfazer as  atuais necessidades de mercado e de continuar a fidelizar e captar clientes.

A questão que coloco é saber quem financiará os investimentos em inovação considerando a enorme fragilidade do negócio bancário (entenda-se a captura de valor traduzido no incremento efectivo das suas receitas)? 

=Resultado Operacional

O resultado operacional é negativo ou próximo de zero (ainda que positivo).

Todos compreendemos que é fundamental trabalhar na melhoria dos proveitos (produto bancário) e na redução dos custos (operacionais). 

À relação entre custo/proveito chama-se rácio cost-to-income. A melhoria deste rácio não se verifica somente pela redução do seu numerador (custos) mas também pelo crescimento do seu denominador (proveito).

Muitos gestores, infelizmente, preocupam-se somente com o numerador esquecendo-se do negócio (a melhoria dos proveitos). O efeito combinado será sempre a solução ideal.

O negócio não acaba aqui. É preciso agora olhar para as cobranças (os pagamentos dos clientes) e para a qualidade dos colaterais que “protegem” o serviço de dívida das carteiras de crédito. Vejamos:

-Provisões

Demasiado elevadas. 

Não era expectável uma crise financeira desde 2008, que evoluísse  para múltiplas crises de dívida soberana, à (pré) – falência de Países como a Itália, a Grécia, a Espanha e Portugal. A intervenção da Troika no nosso país  obrigou a uma desalavancagem financeira (entenda-se reduzir o rácio de transformação de depósitos já explicado para valores inferiores a 120%), a um reforço dos rácios de capital (entenda-se pedir aos accionistas investimento em período de elevados prejuízos e desvalorização bolsista agressiva), a reestruturar e redimensionar o negócio (entenda-se emagrecer a estrutura de pessoas e vender posições em negócios não considerados core – por razões de não serem negócio bancário ou por o serem mas em geografias não core) e, outras medidas, como sejam a rentabilidade mínima de 10% exigida para as operações de crédito (entenda-se o valor estabelecido para ROE – Return on Equity). 

Qual o impacto destas medidas na economia real? Faz sentido a execução destas medidas? 

Efectivamente, a falência de empresas e o elevado desemprego verificado fez disparar o incumprimento para níveis jamais previstos por qualquer analista financeiro. Obviamente que a pressão sobre o nível de provisões a constituir pela Banca foi também elevado mas a partir de uma conta de resultados operacionais muito fraca, sem músculo, para o esforço que lhe estava a ser solicitado.

A culpa era pois dos custos e não do que estava a acontecer nos proveitos (a já referida descida da euribor agravava continuamente a receita a receber) promovendo-se cada vez mais medidas avulsas de emagrecimento, sem se perceber efetivamente o que estava a acontecer (nem mesmo a classe política – dirigentes nacionais e europeus, e das autoridades nacionais).

-Imparidades

A culpa foi das avaliações!

Não necessariamente. A prudência desesperada e imposta pelas entidades reguladoras resultou em avaliações sucessivas de desvalorização dos colaterais contabilizados o que se traduzia em solicitações contínuas de reforço de imparidades (entenda-se a partir da mesma conta de resultados operacionais extremamente debilitada).

Esta é a quarta premissa financeira colocada em causa: um activo imóvel é um activo sem risco cuja valorização é sempre verificada quando analisada uma série longa de anos de observações. Assim se ensinava, geria e se atribuía ratings de AAA a quaisquer carteiras desde que existissem colaterais de bens imóveis. Assim se “fabricava” dinheiro (efeito multiplicador da moeda) por via das operações de securitização (venda de carteiras de crédito a entidades terceiras), geradoras de liquidez na economia, vezes sem conta, esquecendo-se todos os intervenientes que a transação na economia real, só aconteceu uma vez (ex. o financiamento de crédito habitação. A construção da casa é única no tempo, a venda do crédito a entidades terceiras pode ocorrer vezes sem conta).

Quem controlava ou regulava estas operações em mercado financeiro?

=RAI (Resultado antes de impostos)

-Impostos

Supostamente são receita do Estado se incidirem sobre resultados positivos.

=Resultado Líquido

Obviamente negativos.

A gestão nem sempre tomou as melhores decisões. São os chamados erro de gestão; não comento os de gestão danosa com responsabilidade criminal embora os condene vivamente. Destaco a elevada exposição ao sector imobiliário (infraestruturas do sector público, projectos de promotores imobiliários privados e crédito habitação a clientes), a exposição concentrada face ao balanço do Banco de volumes de crédito concedidos a grupos económicos considerados como blueships, a exposição à dívida soberana do próprio país (a quinta premissa financeira também colocada em causa: o risco de país / divida soberana foi ensinada e valorizada por diversos modelos financeiros como sendo um activo sem risco), os planos de expansão orgânica de unidades de negócio, a expansão internacional para mercados com elevado risco político, entre outros.

No entanto, a gestão sempre se esforçou por acomodar as melhores práticas nas suas decisões diárias. Contudo, essas best practices, comumente sugeridas por consultoras especializadas, eram suportadas nas ditas premissas financeiras acima referidas que, em si mesmo, se vinham alterando, mas que todos recusavam em aceitar ou tão pouco em reflectir.

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